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SUPERDOTADOS - Entidade congrega pessoas situadas entre as 2% da população mundial com maior quociente de inteligência. Carlos Ribeiro
Existe, há cerca de um ano, em Salvador, uma entidade com características muito especiais. A ela pertence um restrito número de pessoas com alto quociente de inteligência, medido por testes devidamente administrados e supervisionados. Essas pessoas estão entre apenas 2% da população mundial com QI acima de 150 (o QI médio é de 90 a 110) e que se destacam pela capacidade de raciocínio lingüístico, matemático e lógico.
A Mensa – do latim, "mesa", representando "uma sociedade construída em volta de uma mesa redonda, onde nenhum lugar é mais importante que o outro" – foi fundada na Inglaterra, em 1946. Atualmente, congrega, no mundo todo, cerca de 100 mil pessoas, pertencentes a diversas classes sociais, de todas as raças, credos, gostos, profissões e estilos de vida.
Vale ressaltar que 100 mil é um número ainda pequeno, considerando-se que 2% de 6 bilhões (número estimado de habitantes da Terra) totalizam a formidável quantidade de 120 milhões de pessoas com alto nível de inteligência. Identificar os superdotados, que se encontram perdidos em meio à multidão, muitos deles sem condições de desenvolver esse potencial, é um dos objetivos da Mensa.
Ação social
Na Bahia, com apenas um ano de criada, a entidade ainda é vista como uma espécie de "clube de inteligência". Um lugar onde se podem encontrar pessoas para um diálogo diferente do comum, conforme explica o coordenador da entidade, o engenheiro Ricardo Reis Mourão, de 44 anos.
Com 20 sócios, quase todos profissionais liberais das áreas de Engenharia e Direito, a Mensa-Bahia tem, entretanto, objetivos muito mais amplos. Um deles é o de descobrir essa potencialidade em crianças de baixa renda. "Nossa intenção é a de conseguirmos bolsas de estudo para que a capacidade delas não seja desperdiçada", afirma o engenheiro civil e professor de ioga Carlos Herculano de Souza Oliveira, 44.
A intenção procede. De acordo com Jaqueline Marques de Castro, servidora pública federal e bacharela em Direito, 36 anos, uma pesquisa realizada pela Mensa de São Paulo revela a existência de um grande potencial de inteligência entre crianças da Febem. "Eles chegaram à conclusão que, quando uma pessoa é muito inteligente e está na miséria, ela faz qualquer coisa para sair dali. Por isso, muitas vezes, cai na criminalidade", diz Jaqueline.
Tal fenômeno suscita uma reflexão sobre o próprio conceito de inteligência. Para Carlos Herculano, os testes realizados pela Mensa medem a capacidade de raciocínio num determinado tempo, e não o conhecimento. "Numa analogia com o computador, a inteligência seria o hardware, a máquina; e o conhecimento o software". Mas o hardware, segundo Ricardo Mourão, não nasce pronto, sendo desenvolvido ao longo da existência.
Que fatores levam a esse desenvolvimento? Para o analista de sistemas Gustavo Peixôto, 28 anos, o ambiente familiar é fundamental no processo de desenvolvimento do QI. O estímulo dos pais, os amigos, a alimentação e o processo do aprendizado na escola são destacados também pela advogada Lúcia Luz Meyer.
De acordo com estudos recentes, segundo matéria publicada na revista Veja, estímulos visuais, associados ao modo de vida do homem moderno, têm contribuído para a elevação do nível intelectual da população, em todo o planeta. Isto seria mais visível em países como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde a prática da medição do QI é mais difundida. No Brasil, ela é feita de forma regular há apenas um ano, pela Mensa.
Pessoas diferentes
Dentre os resultados positivos da aplicação dos testes, um deles é destacado por todos os integrantes da entidade: o de colocar em contato pessoas cujo comportamento social lhes rende a pecha de "diferentes" ou mesmo de "problemáticas". "As pessoas sempre vêem a diferença pelo lado negativo. Incomodam-se quando perguntamos o por que das coisas", diz Jéssica Meyer Garcia, 17 anos, estudante do Colégio Militar e, como a mãe, Lúcia, também membro da Mensa.
Para Álvaro Dias Simões, 16 anos, estudante do Portinari, filho do juiz do trabalho Álvaro Emanuel Simões, 42 (ambos mensans), a pecha é a de ser considerado uma pessoa "distraída" e um tanto "esquisita". A questão, diz ele, "é que nós pensamos em muitas coisas ao mesmo tempo".
Se já não é fácil ser uma pessoa superdotada, a coisa fica ainda mais complicada quando se é do sexo feminino. "Ser mulher inteligente é um carma", diz Jaqueline Castro. O motivo, segundo ela, é que a mulher é criada para seguir regras e, quando não as segue, é crucificada. "Por isso, quase todas as mulheres da Mensa são separadas".
Mas todos os membros da Mensa parecem concordar com a afirmação de que a inteligência, sozinha, não é suficiente para a auto-realização. "Existem qualidades que são mais importantes do que a inteligência", diz Jaqueline. "A mais importante é a sabedoria, que envolve inteligência, humanidade e amor", diz Carlos Herculano. "E há, ainda, a intuição. Einstein dizia que pensava anos a fio sobre o mesmo assunto e que a resposta só vinha quando deixava de pensar".
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